Escrito nos idos de 2006/2007.
Ele sabia contar em números romanos. Escrevia tudo bonitinho e sempre repetia com os dedinhos, I, II, III. Na areia que residia na extremidade direita do parque, tão movimentado naquele domingo, estava o pequeno, rabiscando na areia com os seus poucos dedos, os números romanos que tanto adorava. O sol era impiedoso, rachava a cabeça limpa e pequena do pequeno menino tão doce e tenro. Mesmo com agasalhos, o garoto sustentava-se ríspido e aparentemente fora daquela onda de calor infernal. Alguns o olhavam com admiração. Parecia um boneco. Branco, com leves movimentos e rosto absorto entre o gramado e a areia. Sua face gorda, corada e vívida era acoplada ao corpinho chulo, pequeno. Pernas gordas, coxas brancas e molengas, as mãos pequenas e rechonchudas, era um belo broto.
O X, o V e o I dominavam o seu pequeno córtex cerebral subdesenvolvido e as outras crianças rodeavam o mínimo parque dominical. Adultos acompanhavam seus brotos, muitos de colo, outros baderneiros, diferentes desse garoto com a bundinha grudada no chão arenoso e quente.
Dum piscar de olhos, criou-se a imagem de uma moeda. Reluzente, aspiradora a qualquer ladrão. Sabia-se se havia valor? Não se sá. Bia era a escrita forjada na coroa da moeda que o garoto segurava com tanto ardor. Era como o portal de todos os males, ou a víbora da morte para o suposto responsável pela condecoração deste sacrilégio. Ele era o guardião e ninguém poderia contestar.
Topara de levantar-se num sopapo. Foi alavancado pela aliança de força compreendida pelos seus molengas-músculos e pela sua fraca coordenação dinâmica. De pé, caminhava com o gigantismo titânico aumentando gradativamente a velocidade instantânea efetuada pelo seu corpo em movimentação oscilante (por olhos de forasteiros do seu mundo parquínico, o movimento progredia-se de um modo constante).
X, V e I. O garoto corria, pulava, parecia outro ser, o anterior ali não se situava mais. Expurgou-se. Como uma bomba acumulada por tempos, explodiu e correu. Com o seu porte e seu fado de seus molengas-músculos, não segurou-se e mais uma vez a gravidade o enganou. Caiu. Caiu? Sim, caiu!
Senti um peso mole e um alfinete na base das canelas inferiores. Ai! Oh, dores! Meu Deus, senti um dodói horrendo. Mas minha joviedade não permitia uma morte súbita. Não, não nunca isso. Depois dum instatin' ponho as minha mãozinhas no bolso do agasalho... Deus! Onde? Onde está? A minha preciosa alma, minha preciosa mãe, a única que cuida do meu viver. Choro, choro como se um movimento de ódio e discórdia me rebentasse. Eu me culpava por perder a minha vida, minha moeda! Moeda do meu amor e criação e tudo. Meus pais, minha tudo estavam naquela moeda. E por um descuido eu a perdi. Prantos e mais prantos de riachos.
Foi-se então a razão do garoto juntamente com a sua coroada moeda, santífica esplendorosa moeda. Não ria da desgraça! Não ria! Foi-se um jovem, uma vida, uma moeda.
Porém, no meio das pessoas que para o garoto obliteraram-se de sua mente por minutos, havia um homem de meia-idade, ou meia-morte expondo o seu cigarro curto, já no fim da linha e da oxigenação. Quem era o ser? Por que fitava o pequeno? Tinha uma resposta para aquilo que o pequeno procurava?
- Desespero, pequeno garotinho? - o cigarro pulou da boca-bigode deste grande que fala.
- oi, mi ajuda. pur favor. - lábios em bico deste pequeno que fala.
- Mas o que houve meu querido pequeno - a face mudara completamente deste grande que fala. Mas o que ocorrera? Deus, transformou-se num outro corpo! Onde está o velho de cara estranha encigarrando um traguinho?!
- issu, moço. eu perdi minha muedinha. eu queeero minha mueda, mueda, quero! - berra este pequeno que fala.
- Moeda? - rápido, este grande que fala.
- cadê minha mueda??? Bia! Bia! - Bia, Bia? Este pequeno que fala.
- Primeiro, qua'teu'nome? - ...rande que fala.
- meu é quítios - um tanto grego, este pequeno que fala.
- Quítios? Nossa! Que nominho estranho prum menininho! - espanta-se como Tróia, este grande que fala.
E continua:
- O meu é Farrappio, Jerônimo Farrappio. - James Bondeou, hein? Este grande que fala.
E continuou mais e continua;
- Tenho uma boa notícia p'ra ti, pequeno. - este grande que fala calou o choro e clamo deste pequeno que fala por um papo.
Continua e vai:
- Olha no meu bolso o que eu achei de manhã! - ... que fala.
- minha mueda! - ...eno que fala.
- Será mesmo? Eu achei de manhã e você perdeu agora. Como pode? - ...fala.
- olha o nomi! Bia! é Bia, num é? - ...ala.
- É sim. Sim, é! Tem o nome de Bia aqui. - ...grande que fala e não mais continua.
FARRAPPIO! Maldito! Não me dava a maldita moeda! Não mesmo! Era minha e ele percebeu, mas queria me tapiar? O que mamãe diria? O quê? Cadê a mamãe para me proteger! Onde? Devolve a minha moeda. Bia! Ajude-Me, pelo Amor de Deus!
- dá! - pequeno
- Só com uma condição. - grande
- não! quero minha mueda e dá logo! dá logo! - pequeno
- Você foi descuidado, merece uma lição! Dou-te a moeda se me abraçares! - GRANDE
E continuou:
- Vem p'ra cá minino. Vem, que eu te mostro o caminho onde te dou a moeda. - ainda GRANDE
-..............(duas lágrimas já escorreram pela face do pequeno).
Mas aonde ele vai me levar? Onde? Minha moeda! Eu só quero a moeda, nada a mais! Se perdê-la morro! Juro que sim! Cravo-me uma faca afiada e vou-me pagar pecados. Só quero a minha moeda. Quero brincar com ela. Na areia. Com a minha roupa suja e quero que minha mãe lave e eu vista várias vezes e que nunca acabe e que ele me dê a minha moeda. Minha moeda, meu amor, minha alma!
Foram seguindo até um ponto obscuro do parque. Ninguém residia naquele momento. Possivelmente fosse aquele o mictório improvisado dos que jogavam futebol, pois o odor era forte e ríspido demais para narinas de ar puro.
Farrappio parou e olhou para o pequeno.
Pediu-me que virasse. Eu o fiz. E agora? Vai me entregar a moeda? Depois eu vou te agradecer como você quer com um abraço. Mas somente se me entregar a moeda, somente. Peço até para mamãe te dar um doce. O senhor não quer casar-se com a minha mãe, meu pai se foi há um mês. Terá a minha mãe, senhor!!! Eu quero a minha moeda!!! (prantos e soluços depois disso).
Fiquei um momento de costas de cara na parede. Ouvi sua roupa se mexendo, caindo. Daí aproximou-se. Meu coração ia morrer. Oh, Senhor! O que fará comigo? Farrappio, Senhor Farrappio! Não! Não me machuque!
Ele sanfonava nas minhas costas e suava e grunhia. Minha moeda!!! Aquilo era a minha moeda? Isso tudo? Mas por que dói? MAS POR QUÊ???
Sentia duro por dentro, rasgos e furôres. Um gelo. Quente também! Oh! Dói! Mas a minha moeda! Onde está? Minha moeda não me saía da cabeça. E por que eu estava ali? Por quê? Estava querendo a minha moeda. Não podia fazer nada. Tinha medo! Muito medo de ele tirar de mim a minha moeda. Dá-me a minha moeda Sr. Farrappio, dá-me!
Depois do fim, ele se ajustou e eu caí aos prantos. Onde? Por um momento, vou sorrir para ver a minha moeda. Afinal, ele prometera! Prometera! E vou perguntar:
- a minha mueda! minha muedinha! cadê? dá pra eu, vai. - lhe falei.
- Ah! É só ter vontade que você vai ter a sua porra de moedinha, seu gazela! - acendeu o cigarro, voltou o cara-mau.
- vontadi, não! eu quero mueda!!!! Haaaaaaaaaaaaa!!! - esperneou-se, ó pequeno.
Não se terminou o choro cortado do pequeno greguinho e Farrappio foi-se fumando e com mão em bolso esquerdo. O fim estava ali. Foi-se a moeda e as pregas do pequeno que hoje engrandeceu sem a sua vontade, oh, destino cruel...
Estava totalmente dolorido, doente e mal-estar. Estava sujo e penso que vou morrer. Mas este bastardo afrouxou-me. Oh, querido bastardo que levou a minha moeda e minh'alma! Foi-se tudo. Mesmo tudo.
Senti pelo afrouxamento, um ímpeto de excretar. Não havia força, não havia mais ânimo para nem uma atividade fisiológica, nada. Mas foi-se liso com muita água, e senti a minha morte vindo com todo aquele líquido em mistura com o tom vermelho de minha dor e um pequeno brilho...Oh! Deus! Era a moeda!!! Minha moeda!!! Muito obrigado meu querido Farrappio! Meu amor, Farrappio!!! Minha moeda e Farrappio! Oh! Você cumpriu...Você cumpriu! Como eu te amo, meu pai, meu credor, minha moeda!