Via Láctea no Telescópio Sertanejo

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Há quase dois anos não via minha mãe, desde a morte de meu pai. Meus familiares,

tios, avós, há mais tempo ainda. Cresci a barba e eles perceberam bem. Cheguei para

passar exatamente uma semana. Vim fazer poesia, acima de tudo. Mas descobri que

não fiz nada, somente anotei o que ouvi, vi e percebi. E a poesia se fez, me olhou fundo

nos olhos, bem quando numa noite sem nuvens, quente com brisa fresca, a Via Láctea

me apareceu limpa e aberta e me pôs no meu lugar. Vi o tamanho do céu e que tudo

está escrito.

 

 

 

Iod, mem, schin – Eloim

 

 

Robson Ashtoffen – Março de 2012

 

Mindo

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O rato, o medo rói o mistério de que toda criança há de perguntar. Estou sobre os ombros de mim mesmo, vivo o contrário que me completa me levantando pelos cabelos a minha vívida gargalhada apelando ao diabo, ao olho torto que nos julga. Contaram-me uma história há tempos longínqua, da qual somente minha memória pode lembrar.

Aquele condenado percorreu um longo caminho escoltado sem dizer uma palavra e sem alguma outra dirigida a ele. Seu julgamento ocorreu antes mesmo do tempo da sua presença. Estava a caminho da punição. As vestimentas dos servos de Hamurabi brilhavam, eram sedosas. Seu suor caía em momentos oportunos a uma harmonia na cinética da sua fluidez.

O sol do deserto é impiedoso, forte e se faz centro. Nele viam deus. O sol o julgou e seu turbante já se encontrava em fios soltos. Fétido, sagrado. Ele o perderia, pois perderia a si mesmo e cairia em cima dos próprios ombros. Chegando frente às ruínas sentiu o ar da sua nova efêmera moradia. Trouxeram-lhe a cruz.

Era um ladrão como os outros, não tinha muitas ideias práticas, não servia muito. Nunca matou, declara. Tinha o nome curto de difícil pronúncia que servia como blasfêmia ao sol. Nasceu condenado.

A cruz foi posta de cabeça para baixo ansiosa para fincar-se no buraco que o servo do sol fazia com calma e concentração. Amarraram cordas em seu pescoço, pernas e mãos. Sua vista inverteu-se e sofreu a queda de cima dos próprios ombros. Tentaram apoiá-lo. Caiu com o corpo abraçando o chão árido. Ergueram-no.

O buraco pedia mais profundidade e com mais calma ainda o servo coberto de branco, com o mais belo turbante visto, cavou o que disse ser suficiente. O mero caído, desacreditado, entorpecido pela própria desvalia, não se reconhecia mais pelos ouvidos, muito menos no reflexo do rio. Era pó; o mesmo que o processo de desfacelamento das rochas, das pedras pequenas. Da transformação das carnes e ossos em pó pelo sol até a maldade fria das noites alenluaradas, ele fixou-se depois de cair mais duas vezes. Fora fixado. Os servos entreolharam-se e acharam aquilo bom e digno de se manter. Todo condenado deve cair três vezes com o corpo e facepersona contra o chão, pois assim sentiria o peso de sua própria cruz. Ele possuía a cruz até seu findar como pó. A cruz estava limpa.

Sentiu o dia acabar e esqueceu-se, entregou-se em orações extensas de poucos conhecedores, falou outras línguas, conjurou-se morto, mas a vida insistia em tê-lo nas mãos. O sol assim queria. O sol queria vê-lo torrar do reto ao rosto para que se perdesse o centro de si e a condição de sadio, homem ágil, móvel.

O sangue chora, não corre. Ele ainda ora. Seu turbante se foi, estava nu. Mesmo desistindo, como soavam suas preces de resignação, ainda a vida persistia em seu castigo. Aprendeu a morrer e a mostrar isso a quem pudesse ver.

O deserto tem estrelas à noite. Tem nuvens ao dia e a terra é tétrica, maldita e quem ali nasce arde em vida mesmo com o céu aberto em estrelas.

 

 

Sobre ouvir e escutar

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"(...) Se, portanto, o dizer não é determinado a partir do som emitido, então o escutar que lhe corresponde não pode mais consistir, em primeiro lugar, num som que batendo no ouvido é então captado, em sons que ferem o ouvido e são retransmitidos. Se nosso ouvir fosse primeiramente e sempre apenas este captar e retransmitir de sons, ao qual se juntariam ainda outros processos, então seria verdade que a mensagem sonora entraria num ouvido e sairia pelo outro. É exatamente isso que acontece, quando não nos concentramos naquilo que é dirigido a nós. (...) O escutar é propriamente este recolher-se, concentrado na palavra que nos é dirigida, que nos é dita. O escutar é primeiro o ouvir recolhido. Na atitude que se põe à escuta, manifesta-se a essência do ouvir. Escutamos, se somos todo ouvidos. Mas “ouvido” não é o aparelho do sentido auditivo. Os ouvidos que a anatomia e a fisiologia conhecem não produzem jamais, enquanto órgãos dos sentidos, um escutar, mesmo que restrinjamos este apenas uma percepção de ruídos de sons e de notas musicais. Uma tal percepção não pode ser nem constatada anatomicamente, nem provada fisiologicamente, nem de uma modo geral, captada biologicamente, como um processo que se desenvolve no interior de um organismo, ainda que a percepção não possa ser e viver sem um corpo. Assim, portanto, enquanto consideramos, à maneira das ciências, o fato do ouvir, partimos de fenômenos acústicos, tudo é posto de cabeça para baixo. Erradamente imaginamos que a ação dos órgãos corporais do ouvido constitui propriamente a audição. E, no ouvir, no sentido de escutar e de seguir o pensamento, não podemos ver mais que uma transposição desta audição propriamente dita no plano espiritual. No domínio da investigação científica podem ser estabelecidas muitas coisas úteis. Pode-se mostrar que oscilações da pressão do ar. Dotadas de uma freqüência determinada, são experimentadas como sons. Partindo de constatações deste gênero no que diz respeito a ouvido, pode-se organizar uma investigação da qual somente os especialistas da fisiologia dos sentidos têm uma visão completa.

      Sobre o escutar propriamente dito talvez se possa dizer, pelo contrário, muito pouco; e isto, certamente, interessa imediatamente a cada homem. Aqui não se trata de investigar, mas de meditar atentamente uma coisa muito simples. Assim, faz parte do escutar propriamente dito justamente o fato de o homem poder ouvir mal, enquanto passa por alto o essencial que deveria escutar. Se os ouvidos não são imediatamente requeridos pelo verdadeiro escutar no sentido de poder escutar, então a situação a respeito do escutar e dos ouvidos é, sob todos os pontos de vista, particular. Nós não ouvimos pelo simples fato de termos ouvidos. Nós temos ouvidos e podemos estar fisicamente armados de orelhas porque ouvimos. Os mortais escutam o travão do céu, o vento da floresta, o murmúrio da fonte os acordes da harpa, o ruído dos motores, o barulho da cidade, somente e na medida em que de tudo isto já fazem ou não fazem parte."

 

 

                                                                       Martin Heidegger, Vorträge und Aufsätze, 1967

 

 

 

 

               

 

 

Imagem - Pink Floyd - Meddle - 1971

Coração, coluna vertebral e medula óssea.

 

 

Escrever em um quadro branco tudo aquilo que me exporta para outras realidades é uma expressão da vontade. Sinto que a insuficiência está ao redor, que tudo acaba e que isso é tão natural quanto nós mesmos. A sua fisiologia segue um ritmo, tem um caminho a demarcar, um cansaço também. Tudo cansa, pois tudo se esforça. Aquilo que flui se dá com esforço e gasto. É a economia da energia. Quando se entende energia se entende tudo, e energia é tempo. Os pontos que vejo disfarçados de gente, de fios, de espaço, em sons são ligados entre si. Ligam-se no esforço, no encrudescimento contínuo das tripas, no ressacar da pele e no fim da vontade explosiva. Tendemos ao repouso, quando não, tendemos a loucura e ao desgaste. Tudo cansa.

 

O coração que não relaxa, existe somente para tal função. Existe para ser gasto e se faz quando se gasta. O coração é eu. É daquele que o detém. As tripas são daquele que as detêm. O coração morre, porque tudo acaba. O coração é frágil e a desgraça vem com o tempo.

 

A coluna vertebral é o antro das tensões. Quanto mais se quer subir, sentir o ar dos ares, mais se estica. Quanto mais se quer ir ao inferno, nas profundezas de qualquer coisa, da mais banal à sublime, mais se contrai. Desfazemos-nos no eixo giroscópico. O peito para fora, o amargo para dentro. Tudo se faz além. Mas a dor não se vai, perdura e aparece no tempo correto. E o correto existe, sem dúvida. A coluna vertebral é o nosso troféu. Não podemos erguê-lo, pois cairíamos fatalmente como perdedores, insustentados pelo próprio prêmio evolutivo. Mas padecer perante a postura ereta, perante o erguido, o vivo e o caminhante é desesperador e fatal, acima de tudo fatal.

 

A medula óssea é o fim. O mais temível dos temas, pois nele reside a verdade. Sentir está além das ciências, está além daquilo que é passível de ser umedecido pelas mãos, pelo suor do medo, pelo gasto excedente de energia. Nele mora a possibilidade de degeneração. Degenerar, perecer e definhar. Perder o gosto da língua, perder a tesão, perder a vista, perder a memória. Perder. O ensino do perder é dor, mas tudo é costume. Na evolução da vida uma característica é certa, o acostumar-se. Somos fluidos e maleáveis, uma lâmina. Temos o corte, que se esvai e cega. Quando cegamos choramos. Cada lágrima nada vale, somente é o efeito, nada limpa, só estremece o corpo. Me sinto sentado, porém deslocado como se girasse sem girar, como se o fundo não houvesse, como se os lados não estivessem. A medula óssea é o fim, ainda longe, mas faz-se fim e anuncia. É como se despencasse, mas sentado, sem sair. O foco de concentração é a cabeça, o pescoço e a medula. Enquanto isso, gasto, vivo, mas já recebi o sinal. Todos nós um dia receberemos, cedo ou tarde. Não há cedo ou tarde, pois nosso tempo é outro, é um tempo filho, mirrado, pequeno, incipiente, que mesmo assim, nos condena e subjuga. Somos menor que isso. Se somos humildes saímos de nós mesmos para outra esfera, outra noção de espaço, em que o tempo é enfrentado face a face. Porém, mesmo com todo esse esforço somos fadados. A medula óssea é o fim, cedo, tarde, nunca ou sempre. É o fim.

 

 

 

 

 

 

http://www.abiuro.com/blog/2011/3577/

Sobre Tales

A água é o princípio de todas as coisas.

Tales-de-mileto

Tales de Mileto está certo, pois suas palavras moram em algumas bocas e pensamentos, porém as interpretações estão longe de tangenciar a poética que seu axioma exala. Pensemos na água como o afastador de todos os males, o maior dos elixires, a panacéia profilática. Justifica-se essa determinação tão contundente justamente pela função de fluidez que a água possui. Onde há água, há fluidez, mesmo na ilusão que nossos superficiais olhos geram quando fitamos uma poça, a vida que ali emerge é o exemplo mais claro de movimento e vida.

Na máquina que funciona e sente abusamos do poder que lhe é concebida. A fluidez diminui com o extremo e os nervos de hoje são mais moles ou mais duros comparados a um persa que temia por saqueadores e sua única paixão era uma cimitarra? 

O sentido d'água é o primordial, o primeiro princípio, pois o afirma continuamente. Não o foi como um estopim para a geração, é a própria geração e ainda gera, portanto.

Quanto mais próxima a nossa relação com a água, física e metafisicamente, mais articulados seremos. A fluidez é a resposta visível de que algo se movimenta e esse algo não está só. A água não se afirma soberana, somente primordial; nunca recusa, é parte componente e inexoravelmente associada àquilo que depende do princípio. A ingestão de água não é somente a melhor recomendação hipocrática, mas como a imersão, o tangenciar e o meditar, em outras palavras, mergulhar, banhar e concentrar fluindo. 

Não há mais razão ou argumentos para pensarmos nós mesmos isolados e recalcados. Sempre tivemos a capacidade de pensar-nos por inteiro, não segregando o princípio do fim, não separando as tripas das lágrimas. O princípio é o que ainda perdura e permite que nos façamos também princípio quando nos declinamos à umidade.

Dois seres inconcebíveis

Esta história nasceu em 2008, se não me falha a memória. Somente consegui terminá-la agora, em 2011. Ela foi-se construindo através da mentalidade e da experiência do corpo, do sentir e agora sinto que estou apto a traduzir numa história escrita o que era concebível somente em pensamento.

 

White-dwarf

 

Muito além do que a imaginação pode construir na sua temporalidade e carne que a enche e lhe dá grossura o que é relatado aqui atinge o movimento dos corpos celestes, nos meandros do universo. Somente é fácil descrever o que não há nesta história. Este não há pode ser encontrado na vista das entrelinhas. De fato, não há de abordar com clareza que traria à tona a tediosa obviedade tal qual a conhecemos.

Dois seres. E ser é o máximo que a incipiente língua dos homens pode aproximar da concepção deste movimento perpétuo desenhado pelo par de seres. No movimento há um digladiar entre os dois seres que supera a escala de tempo espacial. Não há antes ou depois, a temporalidade como tal era cada mover dos seres e o tocar entre os dois gera o que traduzimos por entrelaçamento. Este entrelaçar é colisão. A ação de um ser é um ataque, um golpe desferido à única coisa que ali há, como sabido, o outro ser. A partir deste golpe o outro é tal qual um espelho e o toque entre ambos gera supernovas, explosões e a cada momento pendular a forma desfaz-se. O que podemos chamar de matéria é um ponto de dúvida. O que chamamos de forma, pode-se entrar em um consenso que é substituída por algo que pode ser traduzido como anti-forma. A constituição dos seres é, portanto, uma anti-forma, que por sua vez, gera.

A freqüência dos ataques não segue sequer um padrão, ou mesmo um estado cognoscível à mente. Cada movimento apaga a memória do anterior. Só se consegue distinguir com aquilo que foi gerado, as supernovas, os planetas que os seres criam na sua batalha.

A luz era o campo. E perpetuamente os seres continuam a machucar-se. O entrelaçamento apaga a memória e desvia a atenção da magnitude do par em conflito. Os planetas que surgem em rotação explosiva eram ínfimos perante os dois gigantes. Possivelmente ambos não notam aquilo que geram. Nunca saberemos. O movimento que reinicia, termina, continua perpetuamente. E isso traduzimos, mais uma vez com o máximo de aproximação que pode-se chegar, por temporalização. O espaço aparenta criar-se no meio do silêncio da anti-forma a partir de cada golpe dado e recebido. A luz percorre somente, não há possibilidades de dizer o que é a luz que se dá, mas esta denuncia o que ali ocorre, a geração.

Buracos negros sugam a luz ao redor, enfraquecem e perecem, enquanto planetas siameses rotacionam e translacionam sem uma órbita. Criam a si um espelho e logo findam, pois aparentam ser aberrações. As próprias criações geradas se comem, engolem ao redor e o dentro. O movimento perpétuo afirma-se vivo e estável perante si, os corpos anti-formados são destruídos e construídos enquanto servem de alimento para os dois seres conseguirem energia para a perpetuação do movimento. Anéis de gás e gigantescos seres brotam espontaneamente, porém estes são tímidos. Dançam pouco, e logo dormem na escuridão.

A luz passeia pela freqüência de cores visível, ao tempo que novas cores além do que o sistema nervoso óptico pode ver nascem e perpetuam-se ao redor dos gigantes. Planos vivos amontoam-se e anti-formam anti-esferas, numa anti-geometria que não corresponde a qualquer esfera ou hexágono. O entrelaçamento mata e pare novas vidas que se comem e aglomeram-se. Os seres, anti-formados, pulsam uma anti-energia que impulsiona as criações. Ali algo havia acontecido. Não há sapiência do fato.

Em uma das supernovas que se cria uma inversão traz um clarão que corre as freqüências de cores visíveis e invisíveis e então nascem mais supernovas desta que cuspe luz. Estas supernovas gaseificam-se e são rapidamente engolidas pelos seres gigantes. Os dois abocanham o movimento e dá-se mais um entrelaçamento.

A memória se foi e retornou, obviamente, o tempo ali funciona de uma maneira inconcebível a qualquer um de carne e osso. E assim faz a memória deste evento, parte na escuridão como se fosse engolida pelos seres e retorna mais gorda, ou mais magra; ou mesmo mais luminosa ou opaca. Não se pode dizer que este relato segue exatamente como o ocorrido, pois a memória que permite o registro e o pulo temporal desta história não nos garante identidade. É como conhecer e desconhecer algo simultaneamente. O ir e vir da memória não permite o reconhecer desta, somente a aceitação perante o seu retorno. Até então, o fim se dá no último retorno da memória e a força para mantê-la presa que custou o desmoronamento do evento aqui relatado perante os olhos daquele que memoriza. O preço da história é o fim do movimento da memória que nasce nova em cada retorno e obriga uma leitura de todos seus passos em um movimento perpétuo.

 

 

 

Foto: NASA.

The Trepanation Book

An Introduction to Trepanation

A selection of some text and information on internet about the experiences on Trepanation:

 

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Fiz uma compilação de textos sobre o assunto Trepanação, tudo em inglês, mas pode ser traduzido colaborativamente. Quem quiser ajudar traduzir para o português, mail me: robson.ashtoffen@gmail.com

 

Leque de Aspas

Fiz esse poema em 2002, quando estava lendo o Gil Vicente e vi que ele escrevia em Galego-Português. Roubei umas palavras dele e do seu modo de escrever, pois achei bonito como se escrevia naquela época e compus um poema.

18491

Perdoe-me se te feri per doer

Mas hoje 'tou mau pesado em sangro

Lado a lado, presente mi, tu

Tu disfarsas falsas farsas comparsas.


Pensava noutra aura, me faleceram

Por tu maçadas levei, gratifica-me

Suspiro-me por tua mesura gran

Hoje me dás ravugens e pustemas

Rancor. Não tenho essa leucemia

Se tens, leixe-me guarnecer tua boca

Como no sonho do vassalo mor.


Ainda há coragem do teu coração

De não me trazer túburas frescas

De um bosque com as nossas tristuras.

Uma moeda forjada com o nome de Bia.

 

Orlando_furioso_27

Escrito nos idos de 2006/2007.

 

Ele sabia contar em números romanos. Escrevia tudo bonitinho e sempre repetia com os dedinhos, I, II, III. Na areia que residia na extremidade direita do parque, tão movimentado naquele domingo, estava o pequeno, rabiscando na areia com os seus poucos dedos, os números romanos que tanto adorava. O sol era impiedoso, rachava a cabeça limpa e pequena do pequeno menino tão doce e tenro. Mesmo com agasalhos, o garoto sustentava-se ríspido e aparentemente fora daquela onda de calor infernal. Alguns o olhavam com admiração. Parecia um boneco. Branco, com leves movimentos e rosto absorto entre o gramado e a areia. Sua face gorda, corada e vívida era acoplada ao corpinho chulo, pequeno. Pernas gordas, coxas brancas e molengas, as mãos pequenas e rechonchudas, era um belo broto.

O X, o V e o I dominavam o seu pequeno córtex cerebral subdesenvolvido e as outras crianças rodeavam o mínimo parque dominical. Adultos acompanhavam seus brotos, muitos de colo, outros baderneiros, diferentes desse garoto com a bundinha grudada no chão arenoso e quente.

Dum piscar de olhos, criou-se a imagem de uma moeda. Reluzente, aspiradora a qualquer ladrão. Sabia-se se havia valor? Não se sá. Bia era a escrita forjada na coroa da moeda que o garoto segurava com tanto ardor. Era como o portal de todos os males, ou a víbora da morte para o suposto responsável pela condecoração deste sacrilégio. Ele era o guardião e ninguém poderia contestar.

Topara de levantar-se num sopapo. Foi alavancado pela aliança de força compreendida pelos seus molengas-músculos e pela sua fraca coordenação dinâmica. De pé, caminhava com o gigantismo titânico aumentando gradativamente a velocidade instantânea efetuada pelo seu corpo em movimentação oscilante (por olhos de forasteiros do seu mundo parquínico, o movimento progredia-se de um modo constante).

X, V e I. O garoto corria, pulava, parecia outro ser, o anterior ali não se situava mais. Expurgou-se. Como uma bomba acumulada por tempos, explodiu e correu. Com o seu porte e seu fado de seus molengas-músculos, não segurou-se e mais uma vez a gravidade o enganou. Caiu. Caiu? Sim, caiu! 

Senti um peso mole e um alfinete na base das canelas inferiores. Ai! Oh, dores! Meu Deus, senti um dodói horrendo. Mas minha joviedade não permitia uma morte súbita. Não, não nunca isso. Depois dum instatin' ponho as minha mãozinhas no bolso do agasalho... Deus! Onde? Onde está? A minha preciosa alma, minha preciosa mãe, a única que cuida do meu viver. Choro, choro como se um movimento de ódio e discórdia me rebentasse. Eu me culpava por perder a minha vida, minha moeda! Moeda do meu amor e criação e tudo. Meus pais, minha tudo estavam naquela moeda. E por um descuido eu a perdi. Prantos e mais prantos de riachos.

Foi-se então a razão do garoto juntamente com a sua coroada moeda, santífica esplendorosa moeda. Não ria da desgraça! Não ria! Foi-se um jovem, uma vida, uma moeda.

Porém, no meio das pessoas que para o garoto obliteraram-se de sua mente por minutos, havia um homem de meia-idade, ou meia-morte expondo o seu cigarro curto, já no fim da linha e da oxigenação. Quem era o ser? Por que fitava o pequeno? Tinha uma resposta para aquilo que o pequeno procurava? 

- Desespero, pequeno garotinho? - o cigarro pulou da boca-bigode deste grande que fala.

- oi, mi ajuda. pur favor. - lábios em bico deste pequeno que fala.

- Mas o que houve meu querido pequeno - a face mudara completamente deste grande que fala. Mas o que ocorrera? Deus, transformou-se num outro corpo! Onde está o velho de cara estranha encigarrando um traguinho?!

- issu, moço. eu perdi minha muedinha. eu queeero minha mueda, mueda, quero! - berra este pequeno que fala.

- Moeda? - rápido, este grande que fala.

- cadê minha mueda??? Bia! Bia! - Bia, Bia? Este pequeno que fala.

- Primeiro, qua'teu'nome? - ...rande que fala.

- meu é quítios - um tanto grego, este pequeno que fala.

- Quítios? Nossa! Que nominho estranho prum menininho! - espanta-se como Tróia, este grande que fala.

E continua:

- O meu é Farrappio, Jerônimo Farrappio. - James Bondeou, hein? Este grande que fala.

E continuou mais e continua;

- Tenho uma boa notícia p'ra ti, pequeno. - este grande que fala calou o choro e clamo deste pequeno que fala por um papo.

Continua e vai: 

- Olha no meu bolso o que eu achei de manhã! - ... que fala.

- minha mueda! - ...eno que fala.

- Será mesmo? Eu achei de manhã e você perdeu agora. Como pode? - ...fala.

- olha o nomi! Bia! é Bia, num é? - ...ala.

- É sim. Sim, é! Tem o nome de Bia aqui. - ...grande que fala e não mais continua.

 

FARRAPPIO! Maldito! Não me dava a maldita moeda! Não mesmo! Era minha e ele percebeu, mas queria me tapiar? O que mamãe diria? O quê? Cadê a mamãe para me proteger! Onde? Devolve a minha moeda. Bia! Ajude-Me, pelo Amor de Deus!

 

- dá! - pequeno

- Só com uma condição. - grande

- não! quero minha mueda e dá logo! dá logo! - pequeno

- Você foi descuidado, merece uma lição! Dou-te a moeda se me abraçares! - GRANDE

E continuou:

- Vem p'ra cá minino. Vem, que eu te mostro o caminho onde te dou a moeda. - ainda GRANDE

-..............(duas lágrimas já escorreram pela face do pequeno).

 

Mas aonde ele vai me levar? Onde? Minha moeda! Eu só quero a moeda, nada a mais! Se perdê-la morro! Juro que sim! Cravo-me uma faca afiada e vou-me pagar pecados. Só quero a minha moeda. Quero brincar com ela. Na areia. Com a minha roupa suja e quero que minha mãe lave e eu vista várias vezes e que nunca acabe e que ele me dê a minha moeda. Minha moeda, meu amor, minha alma!

Foram seguindo até um ponto obscuro do parque. Ninguém residia naquele momento. Possivelmente fosse aquele o mictório improvisado dos que jogavam futebol, pois o odor era forte e ríspido demais para narinas de ar puro.

Farrappio parou e olhou para o pequeno. 

Pediu-me que virasse. Eu o fiz. E agora? Vai me entregar a moeda? Depois eu vou te agradecer como você quer com um abraço. Mas somente se me entregar a moeda, somente. Peço até para mamãe te dar um doce. O senhor não quer casar-se com a minha mãe, meu pai se foi há um mês. Terá a minha mãe, senhor!!! Eu quero a minha moeda!!! (prantos e soluços depois disso).

Fiquei um momento de costas de cara na parede. Ouvi sua roupa se mexendo, caindo. Daí aproximou-se. Meu coração ia morrer. Oh, Senhor! O que fará comigo? Farrappio, Senhor Farrappio! Não! Não me machuque!

Ele sanfonava nas minhas costas e suava e grunhia. Minha moeda!!! Aquilo era a minha moeda? Isso tudo? Mas por que dói? MAS POR QUÊ???

Sentia duro por dentro, rasgos e furôres. Um gelo. Quente também! Oh! Dói! Mas a minha moeda! Onde está? Minha moeda não me saía da cabeça. E por que eu estava ali? Por quê? Estava querendo a minha moeda. Não podia fazer nada. Tinha medo! Muito medo de ele tirar de mim a minha moeda. Dá-me a minha moeda Sr. Farrappio, dá-me!

Depois do fim, ele se ajustou e eu caí aos prantos. Onde? Por um momento, vou sorrir para ver a minha moeda. Afinal, ele prometera! Prometera! E vou perguntar:

- a minha mueda! minha muedinha! cadê? dá pra eu, vai. - lhe falei.

- Ah! É só ter vontade que você vai ter a sua porra de moedinha, seu gazela! - acendeu o cigarro, voltou o cara-mau.

- vontadi, não! eu quero mueda!!!! Haaaaaaaaaaaaa!!! - esperneou-se, ó pequeno.

 

Não se terminou o choro cortado do pequeno greguinho e Farrappio foi-se fumando e com mão em bolso esquerdo. O fim estava ali. Foi-se a moeda e as pregas do pequeno que hoje engrandeceu sem a sua vontade, oh, destino cruel...

Estava totalmente dolorido, doente e mal-estar. Estava sujo e penso que vou morrer. Mas este bastardo afrouxou-me. Oh, querido bastardo que levou a minha moeda e minh'alma! Foi-se tudo. Mesmo tudo.

Senti pelo afrouxamento, um ímpeto de excretar. Não havia força, não havia mais ânimo para nem uma atividade fisiológica, nada. Mas foi-se liso com muita água, e senti a minha morte vindo com todo aquele líquido em mistura com o tom vermelho de minha dor e um pequeno brilho...Oh! Deus! Era a moeda!!! Minha moeda!!! Muito obrigado meu querido Farrappio! Meu amor, Farrappio!!! Minha moeda e Farrappio! Oh! Você cumpriu...Você cumpriu! Como eu te amo, meu pai, meu credor, minha moeda!